Paixão: Por que relacionamentos tóxicos são tão interessantes?
O ciclo vicioso em busca de uma bomba de emoções.
Segundo Sobonfu Somé (citada por Noguera, 2020), o amor é uma construção conjunta, onde o ego deve ser deixado de lado. A paixão é um sentimento incontrolável, tal qual uma fogueira em que foi jogada querosene nas chamas.
Levando essa analogia da fogueira, um relacionamento tóxico é como se você estivesse morrendo de frio, beirando a hipotermia e querendo se aquecer em um acampamento com uma fogueira enorme rodeada de tonéis de gasolina, onde há o pavor do que pode acontecer se todos eles explodirem e a ansiedade da possibilidade de o fogo aumentar e você ter mais calor.
Percebe como logicamente é irreal que acreditemos que uma fogueira tão perto de tonéis de gasolina não vá estourar e no mínimo te machucar gravemente? Obviamente a reação esperada é que sintamos medo e tentemos sair dessa situação, então por que não é o que acontece?
Freud descreve o comportamento de repetição compulsiva, como a necessidade de repetir os mesmos fatores esperando um desfecho diferente. Por traumas ou até mesmo pela procura daquela primeira bomba de amor que recebemos no começo de um relacionamento, as pessoas procuram essa intensidade contínua, não só no começo. Isso as leva a repetir incessantemente todos os padrões que as levaram a sentir aquela sensação de amor e adoração do começo do relacionamento.
Isso leva a vários desfechos diferentes, tanto uma pessoa que sempre está terminando e começando relacionamentos quanto aquela pessoa que nunca consegue colocar um ponto final definitivo na relação que já não lhe faz mais bem. Quando estamos acostumados ao padrão de relacionamento de “intensidade de emoções -> percepção de um ser imperfeito -> desentendimento -> distanciamento -> reaproximação -> intensidade de emoções”. Quando já se tem esse padrão, sabemos que tudo isso acontecerá de novo e se torna um vício, uma repetição compulsiva. Por mais que seja uma repetição tóxica, ela é familiar. E para além de familiar, ela se torna a esperança de que se um cisco cair diferente, vai mudar o desfecho.
Por outro lado, há quem nem chegue a romper: o vício, nesse caso, não é o pico da reconciliação, mas a própria incerteza do dia a dia. “Será que ele vai estar bem hoje? Será que se eu cortar o tomate em rodelas e não em cubos ele vai gritar comigo? Quando eu chegar em casa preciso estar preparada para tudo, nunca sei se ele estará de bom humor.” há sempre a possibilidade, mesmo que remota, de que tudo corra maravilhosamente bem, ou que não, que isso escale para um tipo de violência, seja física, patrimonial, verbal etc. A esperança de que as conversas sejam leves, de que ele vá te receber em casa com abraços, ter a segurança de poder confiar no seu parceiro, tudo isso é uma aposta que muito possivelmente não vai se pagar.
Uma pessoa emocionalmente frágil fica mais suscetível a cair em um relacionamento desses de que falamos. Agora, uma pessoa que já passou por essas situações, conseguiu com muito esforço sair desse ciclo vicioso e começou um novo relacionamento, vai ter dificuldade em entender que a ausência do caos e da imprevisibilidade não significa falta de amor.
O amor é muito mais calmo, é a construção da confiança e intimidade, que compõe a base de um relacionamento saudável. Por vezes, é comum que se confunda a paz com a ausência de amor, quando na verdade é o completo oposto. Ainda trazendo Somé, a paixão é o ápice do amor, sendo a cumplicidade, conexão e intimidade a base dele. Uma paixão construída em uma base sólida de confiança se torna uma chama segura que é alimentada eternamente enquanto a base estiver firme.
Fica aqui então o alerta de que a paixão repentina de um novo começo não deve ser levada como um estado permanente, mas sim como a ansiedade de conhecer e começar uma nova história. Um relacionamento construído em uma emoção passageira, que eventualmente deixará de ser tão intensa, está fadado ao fim. Coloque seus esforços em construir uma intimidade tão profunda que a paixão será uma convidada frequente em sua relação.
Fontes
Somé, S. O Espírito da Intimidade. Como citado em: Noguera, R. (2020). Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor. HarperCollins Brasil.
Noguera, R. (2020). Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor. HarperCollins Brasil.
Cannon, J. (2026). Why Toxic Relationships Can Feel Good. Psychology Today. https://www.psychologytoday.com/us/blog/stress-fracture/202603/why-toxic-relationships-can-feel-good
Instituto de Psicologia da USP. Entenda o que é um relacionamento tóxico e saiba como identificar os sinais de alerta. https://www.ip.usp.br/site/noticia/entenda-o-que-e-um-relacionamento-toxico-e-saiba-como-identificar-os-sinais-de-alerta/
Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer [1920]. In: Obras completas, volume 14. Companhia das Letras.
Andressa Morato